Além de ampliar a autonomia de estudantes,
ferramentas digitais podem ser aliadas para transformar práticas e criar
ambientes inclusivos
A tecnologia é uma importante aliada de
professores para garantir a autonomia dos alunos, seja para amenizar barreiras
ou para personalizar o aprendizado. Quando se fala em ambientes inclusivos, é
comum pensar em tecnologias assistivas, que promovem ou ampliam as habilidades
funcionais de pessoas com deficiência, mas professores dedicados a trabalhar a
inclusão na escola também reconhecem que as ferramentas digitais têm um
potencial de engajar os alunos nas práticas de aprendizagem.
No Colégio Estadual Carlito de Carvalho, em Macajuba
(BA), o professor Adryan Ribeiro Oliveira percebeu durante as aulas de história
que o uso de novas tecnologias e metodologias ativas facilitava a inclusão dos
alunos com deficiência.
Incomodado com a sua prática em sala de aula,
há quatro anos ele se juntou a outros educadores para fazer parte de um grupo
de experimentação em ensino híbrido –metodologia que usa a tecnologia para
mesclar o aprendizado online e offline. Mergulhado em novas possibilidades para
ensinar história, o professor começou a notar que uma aula expositiva de
cinquenta minutos não era suficiente para garantir a aprendizagem de todos.
“Muitos alunos não conseguiam captar as informações e acabavam ficando para
trás”, lembra Adryan, que também é coordenador pedagógico do Colégio Estadual
Carlito de Carvalho.
Diferente de uma aula expositiva, em que só
alguns conseguem reter a informação, o ensino híbrido facilita a inclusão.
A partir daí, o contato com metodologias ativas
incentivou o educador a experimentar novos formatos de aulas com uso de
tecnologia. Para explicar sobre regimes totalitários no ensino médio, por
exemplo, ele apostou na sala de aula invertida: gravou uma videoaula para os
alunos aprendem o conteúdo em casa e reservou o tempo em sala apenas para
debater o assunto. “Foi interessante notar que cada aluno aprendeu no seu
ritmo. Enquanto alguns contaram que assistiram ao vídeo apenas uma vez, outros
precisaram pausar e voltar várias vezes”, relata. Nessa dinâmica, Adryan diz
que a aula começou a se tornar mais atraente para toda a turma. “Eu percebi que
tinha algo no ensino híbrido que engajava os alunos com deficiência”, conta.
Em outro tópico sobre democracia na Grécia
Antiga, o professor adotou o modelo de rotação por estações. A aula incluía
diferentes atividades simultâneas, como pesquisar na internet, assistir a um
vídeo do canal History Channel ou usar o material digital do colégio para
responder algumas perguntas. “Os alunos poderiam escolher por onde iriam
começar a aula e trocavam de estação conforme o próprio ritmo. No final da
aula, era possível identificar quem tinha um desempenho maior com vídeo,
apresentava dificuldade com texto ou precisava desenvolver melhor as
habilidades de pesquisa”, explica ele.
Para o professor do ensino médio, que tem
alunos com autismo e déficit de atenção, a metodologia ajuda a ampliar o
envolvimento de toda a turma. “Quando você possibilita que o aluno não fique só
ouvindo, de alguma forma você vai conseguir captar a atenção dele. Diferente de
uma aula expositiva, em que só alguns conseguem reter a informação, o ensino
híbrido facilita a inclusão”, defende Adryan, que aposta na diversificação de
atividades como um caminho para valorizar a maneira de aprender de cada
estudante.
Em Baixa Grande, a professora Marcela Barbosa,
também começou a investir na diversificação de atividades e no uso de
tecnologia para incluir alunos com deficiência durante as aulas de educação
física. Responsável por turmas da EJA (Educação de Jovens e Adultos), ela
organiza a aula com diversas práticas esportivas acessíveis para todos os
estudantes.
“Se eu vou trabalhar atletismo, não dá para
colocar todos os alunos para fazer exatamente a mesma atividade. A gente
precisa pensar em estratégias para que eles participem do esporte dentro dos
gostos e preferências deles. É como se fosse no ensino híbrido: uma aula com
vários recursos para os alunos”, comenta Marcela, que tem especialização na
área de educação inclusiva. Para contextualizar as modalidades, a professora
também começou a usar os recursos disponíveis no laboratório de informática das
escolas. Hoje ela mescla as aulas práticas com momentos de investigação sobre
diferentes esportes.
Nas atividades dentro do laboratório, a
professora organiza a turma em grupos que sempre envolvem alunos com maior e
menor domínio das ferramentas digitais. “Às vezes o aluno tem dificuldade para
escrever, mas na sala de informática ele consegue digitar as letras. Isso é
muito bom para a autoestima deles”, destaca Marcela. Com o intuito de trabalhar
os conteúdos associados ao esporte, ela recorre a diferentes objetos digitais
de aprendizagem disponíveis na plataforma Currículo + (versão customizada da
Escola Digital para a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo). “Eu
trabalho com caça-palavras, jogos e vídeos. Estou fazendo com que os alunos se
adaptem, porque a tecnologia também é importante para a aprendizagem deles,
independente de ir para a quadra jogar.”
De acordo com ela, nessas aulas é possível
notar que os alunos com deficiência ficam mais motivados porque conseguem
desenvolver as atividades no seu ritmo. “A tecnologia é viva, colorida e
lúdica. Ela potencializa a inclusão porque você não fica apenas em uma
metodologia”, diz Marcela, que reafirma a importância de oferecer diferentes
opções para a turma. Durante as atividades, ela conta que também estimula que
os alunos façam pesquisas e montem apresentações com curiosidades sobre os
esportes no PowerPoint, trabalhando um pouco com design e animação. “Quando o
aluno tem autoestima, eu acho que a aula flui. A metodologia diversificada e
diferenciada traz muito progresso.”
A tecnologia é viva, colorida e lúdica. Ela
potencializa a inclusão porque você não fica apenas em uma metodologia
O progresso, apontado por Marcela, foi
observado na prática pelo professor Adryan. Com graduação em pedagogia, ele
sentiu a necessidade de buscar especialização em educação inclusiva quando
recebeu na sua turma um aluno com dificuldade de aprendizagem e uma aluna com
deficiência visual. “Eu fiz uma série de adaptações do material e assim começou
o meu trabalho. Um ano depois me ofereceram ir para a sala de recursos, onde
comecei a trabalhar para que a inclusão acontecesse dentro da escola”, lembra.
E o professor ainda completa: “Quando você usa
a tecnologia, você amplia o espectro de aprendizagem do aluno. Primeiro, porque
ela é atraente e inovadora. E, segundo, porque você consegue suprir as
necessidades de cada um. Às vezes um aluno não aprende só ouvindo, ele precisa
de algo visual. Outros precisam de uma experiência maior para visualizar um
conteúdo de forma prática.”







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